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Sem equilíbrio na divisão de recursos da Educação, os que mais precisam investir são os que menos recebem

21 de out de 2015 - Jornalismo

A desigualdade na distribuição de recursos cria diferentes níveis de acesso a ensino de qualidade dentro do próprio país

O salto para tornar o país mais competitivo economicamente e mais rico em capital humano passa pela garantia de uma educação de qualidade, principalmente como ênfase no ensino para adolescentes de até 15 anos. Para o secretário da Educação de Salvador, Guilherme Bellintani, a desigualdade na distribuição de recursos cria diferentes níveis de acesso a ensino de qualidade dentro do próprio país.

De acordo com Bellintani, o modelo atual que toma como base os recursos provenientes da contribuição de cada estado e município acaba por fortalecer as diferenças entre os níveis de educação.

“A forma como está concebida hoje a distribuição dos recursos do país faz com que a cesta seja desigual. Acaba que o estudante de São Paulo recebe mais dinheiro proporcionalmente do que os que estudam nas escolas baianas. Às vezes, até um quarto do valor. É preciso equilibrar essa distribuição para que todos os estados ganhem os mesmos recursos”, defende o secretário ao citar o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (Fundeb)

Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos Pela Educação, propõe um modelo de distribuição de recursos da educação ainda mais radical: os alunos que estudam em escolas cujos municípios têm piores condições de oferta do ensino e que têm notas mais baixas nos rankings devem receber mais dinheiro público.

A lógica passa não pela igualdade de recursos, mas pela garantia da equidade, no qual quem precisa mais deve receber mais, tanto atenção, quanto dinheiro.

“Hoje, os adolescentes e as crianças têm acesso a uma qualidade de ensino muito variável no país. É preciso enfrentar esse debate, e acho que essa é uma tarefa de nossa geração, reduzir a desigualdade educacional tratando diferentes os diferentes, dando mais para quem tem menos. É preciso desenvolver um sistema de financiamento que transfere mais recursos para os locais mais pobres e que remunere mais aqueles professores que estão indo para os locais mais difíceis. Eles precisam ter mais apoio, mais recursos para sair do ciclo de exclusão e pobreza”, argumentou Priscila.

“Do jeito que está, quanto mais desenvolvida a cidade, mais ela ganha do Fundeb. A criança que nasce em uma cidade desenvolvida terá educação melhor. Dinheiro já existe, estamos priorizando errado”, diz Bellintani. O secretário de Educação da Bahia, Osvaldo Barreto, lembra que os dados oficiais sobre a educação no Brasil mostram o “tamanho do desafio que o país  tem”.

Ele faz coro à queixa de desigualdade na distribuição dos recursos. “Os números oficiais mostram que 37% dos estudantes do nível I (ensino fundamental) no Nordeste não aprenderam o mínimo para seguir adiante. No Brasil, a média é de 22%. É preciso equilibrar isso”, afirma.

Modelo atrasado de ensino prejudica estudantes

Salas de aula com a mesma estrutura do século 19, currículo escolar inchado e pouco definido do século 20 e alunos com a cabeça no século 21.

A transformação da educação brasileira passa por  mudanças na organização, na grade de ensino e pela valorização de professores.

A diretora-executiva do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, diz que o desafio de melhorar a qualidade do ensino fundamental e médio inclui a mudança no papel dos professores em sala de aula e na inovação da estrutura da sala de aula.

“Se você olhar uma imagem de uma sala de cirurgia do século 19 e comparar com a de hoje, está bem diferente. Se você olhar para uma sala de aula você vai ver exatamente a mesma coisa: alunos sentados e um professor em pé falando sem parar. Precisamos agir rapidamente e não esperar um momento ideal para implementar uma mudança”, alerta.

O modelo colaborativo de educação se assemelha a uma redação de jornal, em que os estudantes se dividem por temas e se comprometem a entregar um resultado em um determinado tempo. O professor age como um catalisador do ensino, esclarecendo as dúvidas, e cobrando resultados.

“Infelizmente, muita gente pensa que isso desvaloriza a figura do professor. Ao contrário, porque vai se exigir um professor cada vez mais capacitado e sofisticado para administrar a condução desse conhecimento. Ele vai ser um animador do conhecimento”, defende Priscila.

A especialista alerta para a urgência da mudança ao citar a baixa aprendizagem dos estudantes que estão em sala de aula. Ela destaca a mudança no currículo, em que se prioriza outras competências dos estudantes.

“Alguns países, como a Alemanha e a Suíça, têm excelentes níveis de ensino técnico. Aqui, a taxa é de apenas 10%. Se você excluir os 10% que irão para as universidades, nós temos 80% dos estudantes que estão sendo jogados no mercado sem nenhuma preparação”, diz.