EM Padre Jose de Anchieta realiza oficina de turbantes como parte do projeto “Laços e Africanidades”

04 de out de 2019 - Jornalismo

A Escola Municipal Padre José de Anchieta, localizada no bairro da Federação, realiza até o final de 2019 o projeto “Laços e Africanidades”, envolvendo as disciplinas de ciências humanas, ciências naturais, matemática e linguagens. O objetivo da iniciativa é a formação de novas mentalidades, principalmente entre os alunos das séries iniciais, promovendo atividades que façam as crianças aprenderem desde cedo a conviver com as diferenças.

Como parte da ação, na quarta-feira (2), alunos do 2º, 4º e 5º anos tiveram a oportunidade de conhecer mais sobre a origem dos turbantes e aprender diversas amarrações, em uma oficina realizada pela proprietária da grife “Turbanque”, Bárbara Rocha. De acordo com a vice-diretora da escola, Cristiane Rocha, o projeto começou em 2017 e é sempre realizado no segundo semestre. “Estamos localizados numa região onde a maior parte da população é de origem africana e o que percebemos é que a maioria dos alunos não tinha esse reconhecimento da própria identidade. Então resolvemos trabalhar a autoestima e o empoderamento deles com uma série de ações voltadas para essa temática”, destaca.

A oficina de turbantes começou com uma dinâmica, na qual a turbanteira colocou os alunos diante do espelho para que dissessem o que estavam vendo. Em seguida, ela se apresentou e contou um pouco da sua história e dos traumas da infância, quando era obrigada a alisar os cabelos, por tradição da família. “Não gostava de passar o dia sentada para ter os meus cabelos alisados e como ficava inquieta, acabava me queimando. Minha testa era toda queimada. Somente quando fiz 18 anos, minha mãe me disse que eu poderia fazer o que eu quisesse e foi ai que resolvi raspar a cabeça. Apesar do espanto de muita gente, foi naquele momento que me libertei e descobri o quanto usar turbantes fazia eu me sentir uma rainha. Já uso há 25 anos e criei a grife para desmitificar esse preconceito com o uso da peça”, contou.

Até o final do ano estão previstas ainda outras atividades como jogos, brincadeiras, contos africanos, produção de bonecas abayomis, mostra de instrumentos, apresentações de danças e músicas, rodas de capoeira, além de práticas literárias sobre o tema. “Estamos com várias ações desde junho, já trouxemos a bailarina Lígia Pires, de 9 anos, moradora do Engenho Velho da Federação, filha de diarista e que passou em seletiva regional do balé Bolshoi. Fizemos questão que ela falasse sobre sua história para nossas crianças para elas se espelharem. Estamos o tempo todo com essas atividades e em novembro vai acontecer a culminância, aproveitando que é o mês da Consciência Negra”, explica Cristina Rocha.

Na oficina, os estudantes estavam ansiosos para experimentar o turbante. Esse foi o caso de Riana Eduarda Lima, de 7 anos, que levou o seu próprio tecido e fez questão de ser a primeira a usar o acessório. “Mesmo que os africanos não morem aqui, eles são muito importantes pra gente. Nunca usei, mas agora que aprendi vou ensinar também pra minha família”, festejou.

Mas engana-se que só as meninas participaram da oficina. Quebrando preconceitos, os meninos também fizeram questão de usar a peça. Felipe Teles, de 10 anos, curte a moda, mas nunca tinha imaginado que homens também poderiam usar. “Gostei da história que a professora contou, que antigamente, os turbantes eram sinônimo de status. Quanto maior o turbante dos homens, mais dinheiro eles tinham. Ainda tenho vergonha, mas vou tentar fazer sozinho e usar mais vezes”, comemora.

“O que queremos é promover o conhecimento sobre a importância da contribuição dos africanos na nossa vida, reconstruir um novo olhar sobre a África, reconhecendo os valores culturais que influenciam em nossas danças, músicas, espiritualidade, afetividade, identificação, dentre outros aspectos. Esse preconceito é cultural e infelizmente, está enraizado. O que queremos é desmitificar isso aqui na escola, valorizando a nossa cultura, nosso povo”, finaliza a vice diretora.